Três mil crianças nascem por ano no Hospital de Base em Porto Velho

Três mil crianças nascem por ano no Hospital de Base em Porto Velho

Claudinéia da Silva Lopes estava prestes a conceber seu bebê no momento da produção desta matéria. Seu terceiro filho estava a caminho, mas não da maneira que se esperava. Ela enfrentava um quadro chamado pós-datismo, ou seja, quando a criança já está passando da data de nascer.

Era quase 11 horas da manhã do dia 26 de abril e os médicos estimulavam o parto normal desde a noite anterior, Claudinéia fazia alongamentos e já havia feito exercícios na bola de pilates, adequada para a gestação. As atividades eram realizadas numa sala chamada pelos médicos de PPP, que significa sala de pré-parto, parto e pós-parto, implantada no Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro em Porto Velho. Neste local, as mãezinhas precisam ficar pelo menos uma hora após o nascimento de seus bebês. “É preciso passar por esse momento”, explica Márcia Rocha Meira, coordenadora do Centro Obstétrico do Hospital de Base, também conhecido com C.O.

O Centro Obstétrico do Hospital de Base foi inaugurado em 1985 com a missão de dar atenção ao município de Porto Velho nos atendimentos de alto risco, mas com o passar dos anos se tornou referência no atendimento no Estado em gestação que apresentam alguma patologia associada. E os números de atendimentos são significativos, cerca de 3 mil partos por ano, entre os normais e os que necessitam de intervenção cirúrgica (cesariana). Se fosse uma conta linear, daria uma média de 8 a 9 crianças por dia. “Mas há os picos, há dias que nascem 18 crianças num dia e outros em que nascem uma criança por hora”, detalha Márcia Meira.

Claudinéia representa mais uma história de vida entre esses números e demonstrava estar ansiosa, pois estava há poucos minutos, no máximo horas, de ter seu bebê no colo, em contraponto com ele, que parecia decidido a se manter no ventre da mãe. Mas este parece ser um caso simples frente aos atendimentos prestados para as mães que passam pelo Centro Obstétrico do HB. Os números montam um triste ranking de partos acompanhados de patologia entre elas: infecção urinária, pressão alta e diabetes. “As infecções do trato urinário são responsáveis por grande parte de partos prematuros”, explica Marcia Meira. Além dessas patologias, algumas pacientes precisam ficar meses internadas no HB antes do nascimento de seus bebês, para tratar doenças como trombose, tuberculose e malária.

E com o atendimento especializado, atualmente o Centro Obstétrico oferece atendimento para pacientes que chegam, além de todos os municípios de Rondônia, da Bolívia, do Mato Grosso e sul do Amazonas.

Humanização no atendimento
A humanização da sala PPP, instalação de ar condicionado nos leitos, sala de isolamento para pacientes com patologia que oferece risco de transmissão e o fato das parturientes terem direito a acompanhantes durante todo o trabalho de parto estão entre os benefícios oferecidos às mães no Centro Obstétrico do HB, na atualidade. Alguns implementados após a inauguração de duas novas alas, há cerca de um mês. Márcia Meira mostra as salas recém-inauguradas para vacina, teste da orelhinha, do coraçãozinho, posto de enfermagem definitivo e um espaço para monitoramento do departamento. “Este espaço oferece condições para administrar melhor o setor, engloba o que está acontecendo na obstetrícia, permite orientar novas diretrizes”, enfatiza.

Em outra ala não muito distante da PPP, Terezinha Moreira, 25 anos, já estava feliz da vida com o filho Guilherme. Aguardava o bebê passar pela avaliação do pediatra para enfim, ser liberada para casa. No trabalho de parto, ela foi levada às pressas para o Centro Obstétrico do HB. “Fui primeiro para a maternidade Mãe Esperança, mas a pressão estava 18/17, aí me trouxeram de ambulância”, conta. Terezinha foi transferida à noite, o quadro de saúde foi estabilizado e o bebê nasceu na manhã do dia seguinte.

No mesmo quarto, Poliana Silva, 29, também aguardava alta da pequena Aurora. Aproveitou a visita da coordenadora do C.O. e solicitou ser atendida pelo psicólogo. Poliana sofreu os tormentos da depressão pós-parto após o nascimento de seu penúltimo bebê. Aurora é o seu quinto filho. A solicitação de psicólogo foi prontamente atendida. Poliana explicou que concebeu no HB, pois teve acompanhamento médico no decorrer da gravidez por ter enfrentado um quadro de tuberculose. Ela já estava curada no momento do parto, mas a pequena Aurora precisava de diagnóstico médico constatando estar tudo bem com sua saúde. As duas pacientes ocupavam leitos que já poderiam estar disponíveis para outras mãezinhas, mas precisavam estar no local até seus bebês receberem alta. “Por isso precisamos de uma Casa de Apoio”, justifica a coordenadora. “Para que essas mães aguardem o atendimento ser concluído, mas liberem os leitos para outras pacientes”, reforça.

Acompanhantes
Em outro quarto, Elaine Ferreira da Costa, 27, dava o primeiro banho na pequena Rebeca, com o auxílio do pai do bebê, Francisco Souza da Silva, que estava no local na função de ajudante. “Agora está bom, porque só um na luta é difícil. Dá só uma olhada no monte de roupas, tem que separar, pegar, fica mais difícil só pra um”, justifica. Elaine reforça a importância da parceria, e garante que assim, a mãe pode cuidar efetivamente do recém-nascido. “Com a ajuda do acompanhante ficamos livres para cuidar da criança. O primeiro banho, por exemplo, eu acho de extrema importância que seja a mãe que dê. É interessante que a mãe faça essa tarefa desde o começo”. Elaine também foi para o Hospital de Base, em decorrência de pressão

O Centro Obstétrico possui cerca de 80 leitos e no local há uma equipe pronta para receber as parturientes. Atuam no setor, além dos médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogo, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e equipe de apoio. Na sala de acolhimento, os enfermeiros classificam os riscos, que dão indícios da urgência nos atendimentos. Márcia Meira ressalta as conquistas para o Centro Obstétrico e a Maternidade do Hospital de Base, mas lembra que ainda há muito que precisa ser feito. A sala PPP, por exemplo, possui três camas obstétricas, mas pelas demandas, garante que são necessárias pelo menos 10. “Já fizemos o pedido desses leitos para a sala PPP”, adianta. Outra necessidade é de um quarto somente para receber as mães que perderam seus bebês, pois atualmente elas ficam juntas. “Isso causa sofrimento para ambas, uma porque perdeu o bebê e para a outra porque fica ressentida pela situação”, esmiúça Márcia Meira.

Em meio aos ajustes, está em franca reforma a ala onde anteriormente funcionava o Centro Obstétrico. Mesmo com benfeitorias que ainda precisam ser efetivadas, inclusive para os médicos, em relação ao espaço destinado para repouso médico, banheiro e copa para os profissionais, pelo menos os pais dessa geração uma coisa não podem negar: A maternidade e o Centro Obstétrico do HB nem de longe lembram aquele hospital, de cerca de 20 anos atrás, em que o ato de dar à luz no local consistia numa espécie de mistério que chegava a ser assustador. “Familiares só podiam acompanhar as mães até uma espécie de portãozinho que ficava no corredor, daquele local pra frente só Deus, as mães e a equipe médica”, lembra Rosa Luz, que concebeu a primeira filha no Hospital de Base há mais de 20 anos. “A família ficava no corredor orando e aguardando notícias”, completa.

Hoje é diferente, não que a família possa transitar no espaço destinado para as mães em trabalho de parto, mas elas têm sim, direito a um acompanhante e os pais podem assistir a cirurgia cesariana. Pela janela, mas podem. “E ainda há muito mais que pleiteamos para as mãezinhas, o parto humanizado já é uma realidade no Hospital de Base e pretendemos melhorar cada vez mais o espaço. Elas merecem”, afiança a doutora Márcia Meira.