Em meio à crise, venezuelanos apelam à religião

Em meio à crise, venezuelanos apelam à religião

Fustigado por crises políticas e humanas, um dos países menos religiosos da América Latina volta-se agora para a fé. À medida que o impasse político entre o presidente Nicolás Maduro e o líder da oposição Juan Guaidó atravessa mais um mês, e a escassez de eletricidade, comida e água reduz a vida a uma luta diária pela sobrevivência, líderes de todas as tradições religiosas estão relatando uma enxurrada de fiéis e não praticantes em busca de conforto.

 

“Todas as minhas missas estão lotadas, o que nunca aconteceu antes”, disse o reverendo Jesús Godoy, um padre católico da paróquia do Bom Pastor, no distrito de Chacao, em Caracas. Ele diz que recebe mais de 2 mil pessoas a cada fim de semana.

Neste país profundamente polarizado, os analistas observam sinais de que dessa crença crescente possa emergir uma força política. Já existem indícios: os membros do clero comentam os problemas do país em homilias e sermões. Igrejas, sinagogas e mesquitas aumentam seus serviços para os pobres. Padres e freiras vão a manifestações a favor de Guaidó em seus trajes clericais.

“Ser um participante espiritual na Venezuela hoje é expressar solidariedade a pessoas que sofrem e sentem-se impotentes”, disse Geoff Ramsey, diretor-assistente na Venezuela do Escritório de Washington na América Latina (Wola). “Isso em si é um ato político.”

Mas um movimento organizado e com base na fé, em resposta ao impasse político entre Maduro e Guaidó, ainda precisa emergir. Analistas dizem que não veem nenhuma evidência de que Maduro esteja mais preocupado com líderes ou grupos religiosos do que com a oposição geral a seu governo.

O governo socialista da Venezuela tem uma história complicada com questões de fé. Hugo Chávez, que lançou a revolução há duas décadas, viu o potencial de usar o cristianismo como uma ferramenta do Estado e invocou seu imaginário como parte de seu apelo público. No início, alguns líderes religiosos estavam abertos à sua promessa de melhorar a vida dos pobres. Agora, muitos são críticos.

O televangelista pentecostal Javier Bertucci, que lidera uma igreja com 16 mil membros na cidade de Valência, concorreu à presidência em 2018 como uma alternativa a Maduro e à oposição – e conseguiu quase 1 milhão de votos.

A Igreja Católica da Venezuela, o maior e mais poderoso grupo de fé no país, tem se manifestado em oposição a Maduro.

E ele tomou nota. Em um pronunciamento transmitido pela televisão estatal em janeiro, Maduro chamou a si mesmo de “verdadeiro líder cristão” e pediu aos venezuelanos que rezassem por ele.

Jaime Palacios, professor de filosofia na Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas, diz que igrejas, sinagogas e mesquitas estão atentas aos desafios sociais e econômicos das comunidades às quais atendem, e podem estar organizando instituições para a ação política.

Neste país sul-americano de 30 milhões de habitantes, os sinais de colapso estão por toda parte. Crianças e adultos pegam comida em pilhas de lixo. Os hospitais pedem aos pacientes que comprem e tragam as próprias bolsas para soluções intravenosas e luvas cirúrgicas. 

O país está dividido e em um impasse. Maduro clamou vitória nas eleições do ano passado, amplamente vistas como fraudulentas. Guaidó declarou-se presidente interino em janeiro.