Crise na Venezuela: entenda a situação atual do país e a sua origem

Crise na Venezuela: entenda a situação atual do país e a sua origem

Apesar da atual situação do país, que já foi o mais rico da América Latina

Porto Velho, RO -
No início deste mês, mais um episódio referente à crise na Venezuela conquistou manchetes ao redor do mundo: o presidente Nicolás Maduro anunciou um racionamento de energia de 30 dias. A medida veio após dois apagões atingirem a nação em questão de semanas, prejudicando desde o transporte público até as atividades em escolas.

Apesar da atual situação do país, que já foi o mais rico da América Latina, não ser novidade para muitos (a escassez de produtos subsidiados pelo governo, por exemplo,  já chegou a 80%) , o desenrolar da crise nem sempre é completamente entendido pelo público, já que ele é complexo e está relacionado a muitos outros episódios.

Crise na Venezuela: os problemas são mais antigos do que se imagina
Para encontrar a raiz da atual crise na Venezuela, não basta voltar cinco ou dez anos atrás: a instabilidade é uma realidade nesse país desde meados da década de 80 - mais especificamente, do ano de 1989. Essa foi a data do chamado Caracazo, evento marcado por protestos fortemente reprimidos nas ruas da capital. Por mais que o estopim por trás das manifestações tenha sido o aumento nos preços de combustíveis e passagens, também havia como pano de fundo o descrédito do então presidente, Carlos Andrés Pérez.

Uma das consequências desse evento foi uma tentativa de golpe de estado contra esse mandatário. Entre os militares responsáveis pela ação estava Hugo Chávez Frías, então paraquedista das forças armadas venezuelanas. Por mais que ele tenha falhado tanto nessa tentativa quando na de 1992, Chávez venceu as eleições de 1998, depois de ser indultado por Rafael Caldera.

Isso, contudo, não trouxe estabilidade aos venezuelanos: em 2002, o presidente sofreu uma tentativa de golpe. Além disso, as medidas adotadas por ele, como a estatização de empresas, a forte interferência no mercado na economia e a expansão dos poderes presidenciais foram polêmicas, criando um racha cada vez maior na população.

A crise na Venezuela não é só econômica
A atual crise na Venezuela tem sido marcada principalmente pelas dificuldades econômicas trazidas à população. Além da escassez de mercadorias, a moeda local, o Bolívar, tem perdido valor de maneira constante, fazendo com que a inflação superasse a marca de 1.000.000% ao longo de 2018. Consequentemente, os sucessivos aumentos no salário mínimo realizados por Nicolás Maduro não são suficientes para manter o poder de compra dos venezuelanos.

Um dos motivos por trás disso é o fato de que a nação foi fortemente afetada pela queda no valor do petróleo, commodity cuja exportação sustentava todos os programas desenvolvidos pelo governo. Entre 2014 e 2016, o "ouro negro" passou a valer ⅓ do que valia anteriormente.

Além disso, a situação também tem um fundo político: de acordo com analistas internacionais, as medidas adotadas pelo chavismo são consideradas autoritárias. Por conta disso, o mercado tende a evitar o risco de investir na Venezuela, fazendo com que muitas empresas se retirassem do país.

A crise na Venezuela pode afetar o Brasil

Apesar de muitas pessoas verem a crise na Venezuela como algo distante da realidade brasileira, há a possibilidade de que a situação afete o Brasil. O principal motivo para isso é a imigração: em outubro de 2018, a Organização das Nações Unidas (ONU) estimava que quase dois milhões de venezuelanos já haviam se refugiado em outros países. Como o Brasil conta com uma fronteira e com um idioma semelhante ao espanhol, o país se tornou um dos principais destinos dos imigrantes da nação vizinha: já existem mais de 30 mil deles em todo o território nacional.

Do mesmo modo, a crise na Venezuela pode trazer problemas ao único estado brasileiro que faz fronteira com o país, Roraima. Isso pois tal unidade federativa recebe energia elétrica venezuelana desde 2001, já que não é conectado ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Isso, por sua vez, pode ser usado contra o Brasil em uma eventual retaliação caso o governo federal adote alguma ação contra o regime chavista. Nesse caso, o estado ficaria totalmente desabastecido de eletricidade.

Até o momento, parece não haver desfecho para a crise

Por mais que a crise venezuelana já esteja bastante prolongada, parece que ainda não há uma saída para a população, mesmo que a oposição tenha se tornado maioria no parlamento, afinal, Nicolás Maduro segue como mandatário no país após ter vencido eleições que, de acordo com observadores internacionais, não foram limpas.

Além disso, essa equação recentemente recebeu um novo elemento: o deputado oposicionista Juan Guaidó. Como o seu partido não reconhece o mandato de Maduro, ele se autoproclamou presidente interino na Venezuela, de modo a promover eleições limpas. Por mais que ele tenha sido reconhecido por diversos países (inclusive o Brasil), ele recentemente foi condenado por crimes que o impedem de exercer cargos públicos por 15 anos, decisão internacionalmente qualificada como autoritária. Pese a interferência de vários países que buscam solução para a crise, com os Estados Unidos tomando frente, parece que o calvário do povo venezuelano está longe de terminar.