A caneleira de Gervásio (Outra versão) Por Altair Tatá

A caneleira de Gervásio (Outra versão) Por Altair Tatá

Futebol

A CANELEIRA DO GERVÁSIO (OUTRA VERSÃO)
(Do anedotário portovelhense)

Por: Altair Santos (Tatá)

Zanzando pelas cercanias do Mercado do KM 1 fizemos um pit stop providencial no Bar do Raimundão. Naquele oásis aplacamos a sede, abrandamos o calor e ouvimos, outra vez, uma dessas estórias de muitas versões, as quais, todas, nos recaem oficiais, legítimas com nuances e particularidades, exatas no tempero e matiz, valiosas no conteúdo, portanto nutrientes à longevidade do nosso rico anedotário tornando-o oxigenado e lustroso ao largo dos tempos, enfeitando a parede da memória.

Acotovelado ao balcão a tecer sobre o futebol local, um senhor contava, como adiante, do nosso jeito e singela maneira debulhamos: foi numa tarde ensolarada de agosto, no início da década de 70, que os deuses do futebol fizeram se confrontar no Coliseu de Rondônia (Estádio Aluízio Ferreira) o Clube de Regatas Flamengo, o rolo compressor da Vila Arigolândia, presidido pelo inesquecível Senhor Eduardo Lima e Silva (Seu Dudu) e o Moto Clube, o alvirrubro, o time do Tio Patinhas, sob o comando do advogado e empresário Rochilmer Rocha e seus irmãos.
 
Os dois escretes foram a campo exibindo, de parte a parte, uma nada modesta constelação de craques, coisa comum por aqui naqueles dourados idos de 60, 70 e 80. O gramado do Aluizão carinhosamente aparado e regado como rosas no quintal, pelo dedicado e caprichoso Administrador Edno Ferraz Leal, seria o tapete onde, logo mais, desfilariam algumas virtuoses do nosso esporte bretão, dentre os quais os guarda-metas Gainetti e Edson Alencar, os laterais Nonato (Bode), Faz Tudo e Jonas, os zagueiros Gervásio, Juvenal, Bezerra e Fio, os volantes e armadores Walter Santos, Delmar, Meirelles, Alcimar e Nazaré, além dos atacantes Juquinha, Hermógenes, Bacu, Manoel Badu, Bacurau.

Pois bem torcida brasileira, o jogo seria mais um clássico repleto de belas jogadas e fortes emoções. Porém a disputa desnudaria, para a coleção de dados ocorridos ou inventados, um item curioso, mui conhecido e debatido em botecos, esquinas e rodas de conversa, com pinceladas e requintes de humor e que, até hoje, ainda intriga muita gente: a famosa, inesquecível e controversa caneleira do Gervásio.

Flamengo e Moto já haviam suplantado Ferroviário, Botafogo, São Domingos, Ypiranga, Vasco e Cruzeiro e fariam um acirrado tira teima, pra ver quem seria o campeão do primeiro turno. Jogo em curso, bola vai, bola vem, bola sobe e bola desce, perigo de gol dos dois lados, os goleiros fazendo defesas milagrosas, foi quando, aos 30 minutos da primeira etapa o meio-campista Nazaré num primoroso lançamento de 50 jardas acionou o ponteiro esquerdo Bacurau. Este, com duas gingas, uma “chapliniana” e outra “agarrinchada,” tirou Nonato (Bode) e Gervásio da jogada e serviu Manoel Badu que fulminou a meta do Gainetti, abrindo o placar pro time alvirrubro: Moto 1 a 0.

Adiante o Flamengo reagiu forte e, numa cobrança de falta, Bacu disparou um petardo quase fazendo envergar o travessão do gol motense.

Em seguida, após a tríade Delmar-Meirelles-Bacu tabelar no meio da cancha, a bola alcançou o velocíssimo Juquinha em profundidade que avançou inalcançável até a entrada da grande área e devolveu para Bacu que deu um “guiza” prostrando dois zagueiros de bunda ao chão, driblou o goleiro Edson Alencar e empatou a peleja.

Detalhe: “só não entrou com bola e tudo porque teve humildade em gol,” como dito pelo Jorge Ben (Jor) sobre o Fio Maravilha. Falando nisso, claro que o Bacu jogava muito mais que o atacante carioca. Aliás, o Bacu, dentre os que vimos jogar, poucos eram como ele, um craque, na acepção da palavra, assim como foram o Edson Piola no Fast de Manaus e o Dadão no Juventus de Rio Branco/AC.

Numa jogada de encher os olhos, após dar uma “caneta” em Delmar e um “banho de cuia” em Meirelles o craque Nazaré fez outro lançamento primoroso e encontrou o jovem atacante Neno (que entrara no segundo tempo) avançando pelo lado esquerdo do ataque vermelho e branco. A partir daí, tudo que se viveu naquela tarde, virou assunto secundário pois, Gervásio o homem da Caravana Ford, o xerife e zagueiro temido, respeitado, o decidido, o viril, o esteio inabalável da zaga, a madeira de dar em doido e guardião da defensiva rubro-negra teve um “insight,” mirou o atacante e abandonou seu posto na pequena área indo, em desabalada carreira, fazer uma gentil blitz educativa no atacante.
 
Sentença da coisa: Neno era a caça e ele, Gervásio, o caçador decidido que não podia falhar, quer dizer, não podia perder a viagem. E assim foi para o tudo ou nada no flanco por onde o jovem centroavante já deixara Nonato (Bode) pra trás e avançava decidido pra marcar o gol, progredindo veloz feito uma flexa venenosa rumo à meta do saudoso goalkeeper Gainetti. 

Estava pronta a parede da resistência contra àquela ofensiva. Gervásio a rocha indestrutível a fortaleza flamenguista agora, feito um antimíssil, viajava para um dos desfechos mais hilários já vistos no futebol municipal, estadual, regional, nacional, internacional e, quiçá, interplanetário, o que fora: interceptar de maneira sui generis, longe da área de perigo, o cheiro de tragédia, um gol do adversário.

O estádio inteiro se pôs de pé, ninguém se atrevia piscar, respirar ou, sequer, fazer prognóstico ao desfecho do lance. José Ribamar o afamado locutor e gogó de ouro da Rádio Caiari, enchia de emoções e expectativas mil os ouvintes da cidade, da região do baixo madeira e, aonde mais, as ondas médias e tropicais da emissora ecoassem audíveis a narração de cada gesto, cada fonema daquele ato.

Conhecendo o marcador e o seu histórico de colisões de proporções titânicas, o atacante, em velocidade, esboçou uma finta fazendo a bola subir um pouco e desviá-la do defensor e, também, em vão, tentou esquivar-se para escapar ileso e obter êxito na jogada mas já se fizera tarde pois, a uns três metros, Gervásio já cortava o ar, voando em velocidade de cruzeiro, um supersônico sem piloto em direção ao alvo para, de qualquer maneira, decidir a parada.

E assim, em menos de um segundo, o público assistiu e nos bairros Arigolândia, Caiari, Olaria, Pedrinhas e arrabaldes, inclusive na margem oposta do Rio Madeira, se ouviu um ensurdecedor e medonho “estralo” crrrraaaaaaccccc... Um longo e uníssono oooohhhhhh da assustada galera, era um mantra quase fúnebre, entoado por quem via uns quatros corpos atirados ao alto e ao chão, em meio a uma densa poeira cósmica que subiu com o impacto, nublando o céu da cidade.

 Os laudos imediatos deram os corpos como sendo um do centroavante motense, o epicentro da coisa, atingido em cheio pelo meteorito identificado pela NASA como “gervasiuns-aço.” Os demais um gandula, um repórter de pista e pasmem, o pipoqueiro do estádio que nunca se soube como ele foi parar ali, talvez tragado pelo redemoinho do espetacular atrito.

Neno gemia e chorava, não pelo gol perdido, mas as dores do infortúnio que lhe rendeu três dentes quebrados, um olho roxo, o pau da venta ensanguentado, quatro costelas avariadas, as duas canelas raladas de cima a baixo, a carne da batata da perna trilhada, além talvez de vômito, tosse de guariba e espinhela caída, dentre outras sequelas resultantes daquela sutil sarrafada.

O impacto superando os sismos de maior magnitude na escala richter, fez tremer e quase desabar a velha castanheira vizinha ao estádio, de cujos galhos despencaram uns trinta ouriços que se espatifaram pelo chão. O padre que celebrava a missa na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, conhecedor da fama e proezas do zagueirão, ao ouvir o barulho desviou a prosa do sermão pedindo aos fiéis que rezassem com toda força e fé pela integridade física de alguém que, dentro das quatro linhas, a se medir pelo estrondo, tivera o azar em dar de proa com o implacável Gervásio.

Em cima do lance, quer dizer, da explosão, Hugo Vieira Barbosa, o juiz da partida, trilou o apito mas, ante a volúpia do marcador e sua força desmedida hesitou na hora de puni-lo pois, ao ineditismo do fato, não sabia como enquadrar o zagueiro num dos artigos da regra recomendada pela Internacional Board.

Liberato o massagista do Moto atendia Neno, cuidando dos seus frangalhos. Enquanto reparava as mutilações do craque massageando-o com um mix de gelo, banha de sucuri, folha de capeba, sebo de carneiro, óleo de copaíba, andiroba e outros unguentos, disse assustado: isso não foi um sarrafo, foi uma senhora surra.
 
A pobre da bola que sobreviveu ao impacto do bing bang futebolístico restou, além de ovalada, com outros aleijos, bicuda nas extremidades e cheia de calombos, parecendo um “jurumum cabôco,” nas mãos dum zonzo e “abirobado” gandula. Enquanto isso o Gervásio, já descalço, inteirinho da Silva, sem um só arranhão, diante dos olhares estupefatos, sacudia o meião despejando na beira do campo os cacos de uma telha de barro que, até segundos atrás, lhe servira de caneleira.
"Dizem" que foi assim!

tatadeportovelho@gmail.com