FIM DE UMA CULTURA DE 257 ANOS
Vila de Teotônio será varrida do mapa pelo Consórcio Santo Antônio Energia, que vai alagar tudo para construir uma usina. Pessoas, animais e floresta desaparecerão. Até um cemitério será inundado.
2009-07-02 - 19:36:00 - EVERALDO FOGAÇA / RUBENS COUTINHO - Matéria Visualizada Vezes
.jpg)
O primeiro não índio a colocar os pés naquele local foi o bandeirante Antônio Raposo Tavares, em 1650, segundo relata o historiador Manoel Rodrigues Ferreira, no livro Nas Selvas Amazônicas. O salto, de acordo com o autor do clássico A Ferrovia do Diabo, já se chamou Iaguerrites, São João, Gamon, Natal, Vila de Nossa Senhora da Boa Viagem do Salto Grande e depois, já em 1781, Cachoeira do Teotônio, nome que perdura até hoje.
Este cenário de cartão postal pouco explorado turisticamente, e praticamente desconhecido da maioria dos moradores da capital rondoniense, principalmente dos mais recentes, desaparecerá do mapa até 2012 para dar lugar à terceira maior usina hidrelétrica do Brasil, com uma potência instalada de 3.150,4 megawatts - o que equivale a 4,3% de toda a energia gerada no Brasil em 2007.
Localizada em plena bacia Amazônica, a Usina de Santo Antônio, construída pelo Consórcio do mesmo nome, já está provocando os primeiros estragos entre as 148 famílias de pescadores e agricultores de subsistência que serão expulsas do local em nome do progresso.

Há oito anos, a cachoeira ainda era conhecida como palco de grandes campeonatos de pesca esportiva. Sumiram o tambaqui, o jaú, a pirapitinga, a jatuarana e hoje seu nome está associado a danos ambientais e deslocamentos populacionais forçados de famílias que, em outras circunstâncias, jamais abandonariam suas casas.
A maioria nasceu ali mesmo, na beira do rio, e não sabe fazer outra coisa a não ser pescar e lavrar a terra. Por isso, a perspectiva de terem de passar a morar - e lutar pela vida - na periferia de Porto Velho causa verdadeiro pavor entre essas famílias.

Hoje, essas famílias sabem apenas que serão obrigadas a deixar o local, mas não sabem quando, nem para onde vão e em que condições, pois o consórcio construtor não se dá ao trabalho de informar os moradores sobre as mudanças.
Caminhando na Vila de Teotônio, localizada a 35 Km de Porto Velho por estrada de terra, é possível perceber o abatimento dos moradores com o impacto imediato que a usina de Santo Antônio já representa na vida de todos. O clima é de impotência diante do poderio da Santo Antônio Energia, formada por gigantes nacionais e multinacionais, como bancos, investidores estrangeiros , companhias de energia elétrica e mega-empreiteiras como Furnas, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Cemig e o Fundo de Investimentos e Participações Amazônia Energia (FIP) - encabeçado pelos bancos Banif e Santander e pelo Fundo de Investimento do FGTS.

De fragmentos de conversas com os moradores também é possível perceber um clima de revolta contida. E não apenas contra o Consórcio Santo Antônio Energia, mas também contra a imprensa (“que apóia o consórcio em troca de dinheiro, não abrindo espaço para nós, moradores”), o Ministério Público (“não veio ninguém aqui ver nosso sofrimento”) e professores e pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (“tinha uns contra a obra, mas foi só serem contratados como consultores que ficaram a favor”).
Não há perspectiva nem a quem recorrer. O Ministério Público não apareceu.
Não há uma liderança nem uma coordenação que possa apresentar a reivindicação dos moradores. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), não se sabe o motivo, também não demonstrou interesse pela sorte dos moradores de Teotônio.
Até as negociações entre o Consórcio e os moradores são feitas de forma individualizada para impedir a organização dos pescadores. Não há nada de concreto. Não se encontra um morador da vila que saiba quanto receberá de indenização ou para onde será deslocado. Fala-se em valores de até, no máximo, R$ 109 mil a título de indenização pela desapropriação. Alguns moradores já teriam recebido sua parte e gastado tudo na cidade, comprando eletrodomésticos, carro usado, roupas e mantimentos. Mas ninguém fala abertamente sobre isso.

Dona Maria Ivanete, de 49 anos, há 27 anos residindo na vila, é o retrato da angústia, do desespero, do abatimento e da incerteza quanto ao futuro de sua família. Ela não sabe quando deverá sair da vila nem o valor da indenização - se é que será indenizada.
Ela disse que as pessoas falam em indenizações entre R$ 90 mil e R$ 109 mil pelas casas e terrenos e num provável assentamento das famílias em outro local, possivelmente na margem da estrada de terra que dá acesso à cachoeira do Teotônio. “Meu marido tem 51 anos e nasceu aqui. Como é que ele vai se adaptar em outro local ? No que ele vai trabalhar, se passou a vida inteira pescando ?”, questiona, irresignada, dona Ivanete.
Outra moradora da Vila de Teotônio que também não sabe como será de sua vida e de sua família é dona Maria Paula dos Santos, de 58 anos, nascida ali mesmo. “As pessoas estão nervosas, sobressaltadas, com medo”, resumiu.

Se dependesse dos moradores, ninguém deixaria a vila, onde as casas são de madeira, tipo palafitas devido às enchentes periódicas, mas espaçosas e asseadas. Os quintais são amplos e com árvores frutíferas. Os casos de violência são praticamente inexistentes. Muitos cultivam abóbora, mandioca e feijão no quintal para a subsistência, aproveitando o terreno de várzea. Mas o rio vai inundar tudo.
Casas, lavouras, comércio, igreja, posto de saúde - tudo vai desaparecer debaixo d’água.
Circundando a vila existe uma densa floresta tropical, onde o ipê e seringueiras se destacam. Tudo vai sumir do mapa. A fauna e a flora serão extintas pela alagação.
Paca, tatu, aves, cotia, macacos de diversas espécies e outros animais silvestres, alguns em extinção, serão exterminados.
Com o desaparecimento de Teotônio também some todo um passado histórico.
OBRAS ATINGIRÃO ATÉ OS MORTOS

O pescador João Bosco, de 59 anos, orgulha-se de pertencer à Família Ferreira, a mais antiga da Vila. Seu pai chegou ali criança e da pesca tirou o sustento da família, sendo sucedido no ofício por João Bosco. É ele quem alerta para o fato de que as obras da Santo Antônio Energia atingirão não apenas os vivos, mas também os mortos que repousam há décadas a dois quilômetros da Vila, no meio da floresta. “Só saio daqui depois de remover os restos mortais de meus familiares”, promete o velho pescador.
A incerteza dos demais moradores é compartilhada até pelos mais remediados economicamente, como o comerciante Carlos Afonso Damasceno, dono de dois comércios na Vila. Ele reside ali há dez anos e diz que o Consórcio não deu nenhum esclarecimento às famílias sobre as possíveis mudanças.
Wellington de Jesus Vieira, de 22 anos, há 14 morando na região das cachoeiras, guiou a reportagem até o cemitério que será inundado. Ele também se diz assustado com a perspectiva de mudança. “Gosto de morar aqui. A cidade não tem emprego, é violenta e não sei o que iria fazer por lá (na cidade)”..

Segurando o cabo de uma enxada enquanto falava, o pescador e agricultor Esmeraldo Santana disse que está em Vila do Teotônio desde 1981. Como a pesca anda escassa, ele busca na pequena lavoura no fundo do quintal o sustento para a família. Ali ele cultiva abóbora e mandioca. Ele não pára para conversar, mas se diz preocupado com o futuro dele e da família. “A gente não sabe o que vai acontecer; enquanto isso vai tocando a vida”.
Único a não querer ter o nome citado na reportagem, o pescador J, que se disse deprimido, revela como recebeu “ambientalistas” enviados ao local pelo Consórcio Santo Antônio Energia: “Vieram aqui umas moças e uns rapazes entregando uns saquinhos pra recolher lixo. Disseram que era para os moradores se conscientizarem sobre o meio ambiente. Eu perguntei: para alagar tudo isso aqui, a empresa que paga vocês vai me expulsar do local onde vivo há 30 anos e mesmo assim vocês ainda têm a coragem de vir aqui falar sobre meio ambiente ?”.

